A Psicologia tem recebido cada vez mais atenção dos estudantes que pretendem cursar o ensino superior. O curso de Psicologia tem sido um dos mais concorridos entre os vestibulares e tem crescido o número de matrículas nas instituições de ensino superior.
Quando entram na faculdade, os estudantes são apresentados a uma diversidade de teorias e campos profissionais, que leva a alguns autores a afirmar que não existe uma Psicologia, mas Psicologias.
A investigação sobre a forma como os seres humanos são e agem pode ser tão diversa quanto o próprio ser humano. Isso porque a investigação depende de qual ponto de vista queremos conhecer o ser humano. Cada investigação construirá uma explicação para aquilo que desvenda e, a isso, dá-se o nome de teorias psicológicas.
Além de explicar o porquê as coisas acontecem como acontecem, a Psicologia a partir das suas teorias cria intervenções para ajudar as pessoas a resolverem seus problemas. Na sequência, as intervenções são testadas e sua resolutividade avaliada. Assim, as teorias psicológicas são aplicadas às diversas práticas clínicas ou contextos.
Há uma diversidade tão grande de abordagens psicológicas que alguns autores chegam a apontar que elas superam 500 linhas teóricas! Com tantas opções, como um estudante pode escolher uma?
Porque há tantas abordagens teóricas?
A resposta para essa pergunta pode ser compreendida ao observar a construção histórica do conhecimento em Psicologia. A área nasce como ciência experimental, e não como prática aplicada, com Wilhelm Wundt no final do século XIX.
Na virada do século surge o que se caracteriza como clínica psicológica, fortemente relacionada ao austríaco Sigmund Freud. Médico e neurologista, Freud percebeu que a medicina da época não conseguia explicar certos sofrimentos físicos sem causa orgânica identificável. A partir dessa constatação, desenvolveu um tratamento baseado na fala. Ao falar sobre suas emoções com um profissional capacitado a escutar e interpretar, os pacientes poderiam alcançar autoconhecimento e aliviar seus sofrimentos. A esse método Freud deu o nome de Psicanálise.
A Psicanálise recebeu críticas, especialmente por enfatizar a sexualidade no desenvolvimento humano e por basear suas pesquisas principalmente em observações clínicas. Apesar disso, foi amplamente difundida e deu origem a diversas escolas e autores importantes, como Melanie Klein, Donald Winnicott, Wilfred Bion e Jacques Lacan.
Paralelamente, outros pesquisadores desenvolveram caminhos diferentes. Um exemplo é Lev Vygotsky. Embora contemporâneo de Freud, não chegaram a se conhecer. Formado em Direito, Vigotski dedicou-se ao estudo do desenvolvimento intelectual humano e destacou o papel dos processos socioculturais na formação da mente. Demonstrou que o desenvolvimento intelectual não ocorre da mesma forma que o físico e que a mediação do conhecimento influencia diretamente o desenvolvimento da criança. Suas ideias deram origem à Psicologia Histórico-Cultural (ou sócio-histórica), muito utilizada nas áreas educacional, escolar e também na prática clínica.
Nos Estados Unidos, o desenvolvimento da Psicologia esteve fortemente ligado ao método científico das ciências naturais. Nesse contexto surgiram duas das abordagens mais difundidas no Brasil: a Psicologia Comportamental e o Cognitivismo.
A Psicologia Comportamental foi fundada por John B. Watson no início do século XX, com o objetivo de estudar aspectos observáveis e mensuráveis do comportamento humano. Posteriormente, a teoria foi ampliada por B. F. Skinner, que incorporou a análise de eventos internos, como emoções e cognições, e destacou a importância da história de vida do indivíduo. Skinner denominou sua filosofia científica de Behaviorismo Radical, que continua sendo estudada e aplicada atualmente.
A partir dessa base surgiram modelos psicoterapêuticos contemporâneos, como a Dialectical Behavior Therapy (DBT) e a Acceptance and Commitment Therapy (ACT), amplamente utilizadas na prática clínica.
O Cognitivismo surge posteriormente como reação ao Behaviorismo, influenciado pelo avanço da computação e pela metáfora do processamento de informações. Essa abordagem considera que os indivíduos são agentes ativos e que a mente seleciona, organiza e interpreta as informações provenientes do ambiente.
Seus desdobramentos deram origem a práticas clínicas amplamente estudadas e cientificamente validadas. A aplicação mais conhecida é a Terapia Cognitiva desenvolvida por Aaron T. Beck. Outras abordagens derivadas incluem a Terapia do Esquema, voltada especialmente para o estudo dos transtornos de personalidade.
Junto com a Psicologia Comportamental, essas abordagens formam as Terapias Cognitivas e Comportamentais (TCC), um conjunto de modelos psicoterapêuticos empiricamente sustentados para diferentes transtornos mentais e populações.
Por fim, também se destacam as Teorias Humanistas, influenciadas pela Fenomenologia e pelo Existencialismo, correntes filosóficas dedicadas à compreensão da experiência humana. Inicialmente voltadas à investigação da consciência, essas perspectivas deram origem a abordagens clínicas qualitativas que se desenvolveram na Europa no início do século XX.
Entre elas estão a Gestalt-terapia, o Psicodrama e a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP). Seus principais representantes incluem Fritz Perls e Kurt Goldstein na Gestalt-terapia, Jacob L. Moreno no Psicodrama e Carl Rogers na Abordagem Centrada na Pessoa.
Como escolher uma abordagem teórica?
De maneira geral, esta é uma pergunta mal formulada que pode levar a incompreensões e confusões. Teorias psicológicas não são escolhidas como se escolhe um clube de futebol para torcer. As teorias psicológicas sustentam o conhecimento, as práticas e intervenções dos psicólogos. A ideia de que uma teoria é antagônica a outra é equivocada. Há, contudo, uma espécie de disputa histórica entre os estudiosos das abordagens psicológicas que depõem contra a profissão.
Às psicólogas e aos psicólogos cabe conhecer a diversidade de abordagens para poder, ele mesmo, construir sua coerência teórica, metodológica e procedimental. As teorias psicológicas não podem servir para engessar o profissional e fazer com que este se feche ao diverso. O psicólogo deve conhecer os fundamentos históricos e epistemológicos das teorias para saber suas aplicações e limitações. Além disso, deve buscar supervisão e aprofundamento naquilo que entende ser o mais indicado para sua atuação para evitar o risco de miscelânea e práticas superficiais.
Durante muitos anos, o olhar para as teorias psicológicas esteve focado em suas diferenças. Nosso convite, neste texto, é dirigido a olhar o que há de comum e compartilhado entre estas formas de encarar o humano e, então, poder auxiliar as pessoas e coletividades na busca por qualidade de vida.